Capítulo 1Wendy Jardim chegou ofegante à Mansão Branca quando a festa já havia começado há algum tempo.A pessoa na porta, claramente surpresa com sua chegada, não esperava vê-la ali."Srta. Jardim, o que faz aqui? Todos já jantaram..."Era o jantar de aniversário do marido, mas esqueceram de convidar a própria esposa. Entre tantos conhecidos, ninguém se dera ao trabalho de avisá-la.Ela sorriu para o porteiro e, prestes a empurrar a porta da mansão, ouviu as conversas que vinham de dentro."Cristiana, o que você deu de presente? O Felipe não tira os olhos da sua sacola, já está ansioso faz tempo.""Eu? Será?""Claro que sim! Você quase fura a sacola de tanto olhar. Faz tempo que a Cristiana voltou para o Brasil, Felipe, acho melhor você se separar logo da Wendy, assim ninguém mais fica incomodado.""Concordo. Naquela época, foi ela quem armou tudo para deitar com você. Se não fosse sua compaixão e preocupação com a reputação dela, jamais teria virado sua esposa. Já teria sido engolida pelo julgamento de todos."No centro da sala, um homem vestia um terno escuro impecável, com dois botões da camisa abertos no colarinho. Seu rosto era de traços marcantes, naturalmente atraente e intenso, com sobrancelhas profundas, nariz reto e lábios finos. Parecia uma borboleta venenosa e colorida, e o olhar levemente inclinado trazia uma arrogância fria e distante."Não há pressa.""Felipe, já se passaram três anos e ainda não tem pressa? Na época, por causa da Wendy, a irmã da Cristiana ficou em estado vegetativo. Se não fosse por sua avó protegê-la, nós já teríamos acabado com ela."Felipe Lima brincava distraidamente com um isqueiro entre os dedos longos e elegantes, até que, de relance, notou uma sombra na porta.Só então todos perceberam que Wendy já estava ali, sem que ninguém soubesse quando havia chegado.Alguém murmurou, "Quem avisou ela?"Ninguém respondeu: estava claro que ela viera por conta própria.Wendy baixou o olhar. Tinha um rosto sereno e delicado, traços suaves e um formato de rosto oval, vestia uma blusa de lã clara, e o cabelo, gentilmente preso atrás da orelha, emoldurava a testa. Quem a visse jamais acreditaria que fosse capaz de algo vergonhoso. Mas era ela, sim, quem havia feito tudo aquilo.Ela segurava um presente nas mãos. Olhou para Felipe, sentado no centro, e sentiu o peito apertado como se envolto por arame farpado, a dor se infiltrando até as pontas dos dedos.Ela caminhou até ele, e antes que pudesse entregar o presente cuidadosamente preparado, viu Felipe franzir levemente as sobrancelhas e lançar um comentário desdenhoso:"Quem te deixou vir?"Risadinhas soaram ao redor, como se cada uma delas quebrasse um pouco do seu orgulho.Cristiana Anjos, ao ouvir aquilo, olhou para Felipe com leve reprovação e puxou Wendy para sentar:"Ela é sua esposa, pelo menos veio te dar um presente. Sente-se, Wendy. Felipe é só assim, meio ranzinza."Wendy apertou os lábios, sem responder. Era esposa dele, mas precisava da ex-noiva dele para amenizar o clima. Ali, ninguém a queria, mas ela ainda assim comparecera. Afinal, aos dezoito anos, ele prometera celebrar juntos o aniversário de vinte e oito.Sentou-se diretamente ao lado de Felipe, afastando Cristiana.O rosto de Cristiana endureceu por um instante, mas logo ela perguntou:"E então, Wendy, o que preparou para o Felipe?"Um dos presentes curiosos abriu a caixa e revelou um cachecol, sem etiqueta, claramente feito à mão.Cristiana falou novamente:"Olha só, pensamos igual! Também dei um cachecol para o Felipe."Os dois cachecóis, ambos tricotados à mão, foram colocados lado a lado — impossível dizer qual estava mais bonito.De repente, alguém esbarrou na mesa. Uma garrafa de vinho aberta tombou e o líquido se espalhou, indo direto nos dois cachecóis.Felipe estendeu a mão e pegou um dos cachecóis; o outro estava completamente encharcado, exalando forte cheiro de bebida.O que ele pegou era o de Cristiana.Ao ver o cachecol em que tinha trabalhado por dois meses mergulhado em álcool, Wendy ficou pálida de repente, sem entender o motivo, sentindo o coração pesado e dormente.Cristiana suspirou, segurou o braço dela de forma reconfortante e disse: "Wendy, não fica chateada, não. Dá pra lavar e usar de novo."Wendy continuou sem responder, apenas olhou para Felipe.Ele mantinha os cílios abaixados, ocultando as emoções nos olhos.O clima no ambiente ficou levemente constrangedor, como se Wendy tivesse atrapalhado uma festa onde todos se divertiam. Um a um, os convidados se levantaram dizendo que já iam embora.Ela permaneceu sentada, imóvel, olhando para o cachecol abandonado na mesinha de centro, sentindo-se igual a ele.Os outros foram saindo aos poucos. Quando viu Felipe também se preparar para sair, Wendy disse baixo: "Felipe, feliz aniversário."Felipe pareceu não ouvir. Ao redor, estavam apenas seus amigos próximos. Ele só fora encontrado pela Família Lima aos vinte e um anos, época em que já era um novo rico feito por conta própria. Ao lado dele estava a Wendy de dezenove anos.Sete anos se passaram; o novo rico tornara-se um magnata no centro do poder, mas o sentimento entre eles já não existia mais.Aqueles tempos difíceis, enfrentados juntos no anonimato, pareciam pertencer a outra vida.Felipe pediu a alguém que levasse Cristiana de volta.Cristiana tocou de leve o ombro dele. "Conversem com calma, vocês dois, não briguem de novo."Alguém riu com desdém: "Cristiana, você tem uma paciência admirável.""Não é questão de paciência, só acho que a Wendy daquela época também era imatura, com certeza não fez por mal.""Que nada, fez de propósito. Acabou com a vida de outra pessoa e ainda teve a cara de pau de tomar seu lugar. Como é que ela ainda tem coragem de aparecer?"A voz soou cada vez mais cheia de desprezo e foi diminuindo aos poucos.Wendy permaneceu sentada, como se estivesse paralisada, sentindo o sangue gelado em cada centímetro do corpo, até a cor dos lábios esmaecer.Ela se levantou, pegou o cachecol encharcado e olhou para Felipe."Felipe."Chamou por ele com uma voz suave e contida.O paletó já estava apoiado no braço de Felipe; ao ouvir Wendy, ele afrouxou levemente a gravata, mas não a olhou. Seu semblante demonstrava visível impaciência. "O que você quer agora?"Ela sorriu de leve, e de seus lábios bonitos saiu uma frase: "Vamos nos divorciar, Felipe."Um traço de surpresa atravessou o olhar dele, a expressão tornou-se sombria e pesada. "Isso é algum truque novo? Primeiro me drogou pra que eu ficasse com você, agora quer se separar como se fosse superior. Wendy, não se cansa disso?""Desculpa por ter te prendido por três anos, mas desta vez é sério."O sarcasmo nos olhos de Felipe foi desaparecendo pouco a pouco. De repente, ele a puxou para perto, apertando firmemente o queixo dela com os dedos. Só quando viu a expressão de dor no rosto dela, aquela sensação sufocante em seu peito diminuiu um pouco. "Agora você fala em tempo perdido? Onde você estava três anos atrás, hein? Vou te dizer, Wendy: quer se divorciar? Não vai levar um centavo meu!""Eu saio de mãos abanando."O olhar dela era límpido, a voz ainda calma e serena, sem vestígios de mágoa.Depois que Felipe foi encontrado pela Família Lima, Wendy também foi reconhecida pelos pais da família como filha de consideração. Todos sabiam que a Família Lima não queria que o recém-encontrado Sr. Felipe se casasse com uma mulher comum, então deram a ela o título de filha adotiva, apenas para silenciar os comentários.Felipe fitou o rosto frio dela, engoliu seco e virou de costas."Tudo bem. Sai de mãos abanando, mas não se arrependa depois."Lá fora, não se sabia ao certo quando começara a chover. A mansão ficava no topo de uma colina, nos arredores da cidade, e por ali era difícil conseguir um carro.Os outros já tinham ido embora dirigindo. Wendy, que chegara de táxi, ficou por último. Parada sob o beiral, ela observava a chuva fina e constante.Um Rolls-Royce preto atravessou a cortina de chuva e parou diante dela. O vidro do carro abaixou-se, revelando o rosto do assistente de Felipe.O nome do assistente era Dinis Leão."Senhora, entre, por favor."Wendy permaneceu imóvel do lado de fora, o olhar atravessando a fresta da janela do carro, como se soubesse que havia mais alguém sentado lá dentro.Ela não disse nada, e foi então que a voz de Felipe soou."Vá embora, deixe-a aí para ver se a água da cabeça dela esfria."Dinis ficou um pouco constrangido, deixou de olhar para Wendy e partiu com o carro.Wendy observou o carro se afastar, piscou devagar. Os fios de chuva avançaram, tocando-lhe o rosto. O frio parecia cravar-se até o osso.Aos dezoito anos, Felipe sonhava comemorar o aniversário de vinte e oito ao lado dela. Mas agora, aos vinte e oito, ele a desprezava profundamente.Nesses três anos, ele nunca a tocara, mal voltara para casa.No círculo social, todos diziam que ela era a mais infeliz entre as mulheres que haviam se casado com milionários. Tinha só uma bela gaiola, e nada mais.Para todos, ela era a vilã que transformara Thais Anjos em uma pessoa em estado vegetativo e roubara o noivo de Cristiana. Uma mulher condenada.Mas parecia que ninguém se lembrava de que ela, dos doze aos dezenove anos, estivera ao lado dele, acompanhando-o desde a pior fase até o início do sucesso.Diziam que a Família Lima lhe dera o título de afilhada e que ela não se contentara, tentando usar os sete anos de companhia para chantagear Felipe moralmente por toda a vida.Mais sete anos se passaram num piscar de olhos. Somando tudo, ela já estava ao lado de Felipe há catorze anos.Ela baixou os cílios e ficou olhando para o aplicativo no celular: ainda não havia nenhum motorista disposto a aceitar a corrida.Quando voltou à Baía Nuvem, já eram duas horas da manhã. A barra do vestido estava encharcada, grudando nos tornozelos. O fim do outono trazia um frio que fazia seus lábios tremerem.Dentro da mansão, as luzes permaneciam acesas. Ao trocar de sapatos no hall de entrada, ela viu o homem sentado no sofá, ocupado com trabalho.A estrutura óssea de Felipe era perfeita; não importava quanto tempo passasse olhando para aquele rosto, ele continuava sendo de tirar o fôlego.Sentado ali, ele parecia uma montanha gelada e inalcançável.Wendy, é claro, não pensava que ele a estava esperando. Três anos antes, já tinham rompido de vez. Ela, antes radiante, agora mal reconhecia a mulher amarga refletida no espelho.Ela trocou de sapatos em silêncio, jogou o lenço no lixo perto da porta e subiu as escadas.No quarto principal, seus pertences eram numerosos: tudo limpo e acolhedor. Como Felipe quase nunca voltava para casa, todos a ridicularizavam por viver como uma viúva de marido vivo.Ela pegou uma pequena mala e colocou algumas roupas do dia a dia. Quanto às bolsas e joias de luxo espalhadas pela parede, nunca as tocara.Felipe dissera que ela não era digna.Aos olhos dele, ela era uma oportunista movida pelo dinheiro. Deixar os artigos de luxo diante dela, sem que pudesse usar, era um tipo de tortura.Wendy desceu com a mala, e colocou o acordo de divórcio assinado sobre a mesa de centro."Felipe, eu já assinei."Nesses três anos, cada encontro entre eles era uma briga. Para ser exato, eram acusações dela: reclamava de sua frieza, tentando loucamente chamar sua atenção. Ele apenas ficava parado, observando-a perder o controle, com um distanciamento gélido, como quem assiste a um incêndio do outro lado do rio.O olhar de Felipe se desviou do computador para a mala dela. A garganta ardia como se tivesse sido invadida por ácido, queimando do pescoço ao estômago.Ele soltou uma risada irônica, a voz fria e cortante como uma lâmina, capaz de rasgar os tímpanos dela.Capítulo 2Wendy Jardim chegou ofegante à Mansão Branca quando a festa já havia começado há algum tempo.A pessoa na porta, claramente surpresa com sua chegada, não esperava vê-la ali."Srta. Jardim, o que faz aqui? Todos já jantaram..."Era o jantar de aniversário do marido, mas esqueceram de convidar a própria esposa. Entre tantos conhecidos, ninguém se dera ao trabalho de avisá-la.Ela sorriu para o porteiro e, prestes a empurrar a porta da mansão, ouviu as conversas que vinham de dentro."Cristiana, o que você deu de presente? O Felipe não tira os olhos da sua sacola, já está ansioso faz tempo.""Eu? Será?""Claro que sim! Você quase fura a sacola de tanto olhar. Faz tempo que a Cristiana voltou para o Brasil, Felipe, acho melhor você se separar logo da Wendy, assim ninguém mais fica incomodado.""Concordo. Naquela época, foi ela quem armou tudo para deitar com você. Se não fosse sua compaixão e preocupação com a reputação dela, jamais teria virado sua esposa. Já teria sido engolida pelo julgamento de todos."No centro da sala, um homem vestia um terno escuro impecável, com dois botões da camisa abertos no colarinho. Seu rosto era de traços marcantes, naturalmente atraente e intenso, com sobrancelhas profundas, nariz reto e lábios finos. Parecia uma borboleta venenosa e colorida, e o olhar levemente inclinado trazia uma arrogância fria e distante."Não há pressa.""Felipe, já se passaram três anos e ainda não tem pressa? Na época, por causa da Wendy, a irmã da Cristiana ficou em estado vegetativo. Se não fosse por sua avó protegê-la, nós já teríamos acabado com ela."Felipe Lima brincava distraidamente com um isqueiro entre os dedos longos e elegantes, até que, de relance, notou uma sombra na porta.Só então todos perceberam que Wendy já estava ali, sem que ninguém soubesse quando havia chegado.Alguém murmurou, "Quem avisou ela?"Ninguém respondeu: estava claro que ela viera por conta própria.Wendy baixou o olhar. Tinha um rosto sereno e delicado, traços suaves e um formato de rosto oval, vestia uma blusa de lã clara, e o cabelo, gentilmente preso atrás da orelha, emoldurava a testa. Quem a visse jamais acreditaria que fosse capaz de algo vergonhoso. Mas era ela, sim, quem havia feito tudo aquilo.Ela segurava um presente nas mãos. Olhou para Felipe, sentado no centro, e sentiu o peito apertado como se envolto por arame farpado, a dor se infiltrando até as pontas dos dedos.Ela caminhou até ele, e antes que pudesse entregar o presente cuidadosamente preparado, viu Felipe franzir levemente as sobrancelhas e lançar um comentário desdenhoso:"Quem te deixou vir?"Risadinhas soaram ao redor, como se cada uma delas quebrasse um pouco do seu orgulho.Cristiana Anjos, ao ouvir aquilo, olhou para Felipe com leve reprovação e puxou Wendy para sentar:"Ela é sua esposa, pelo menos veio te dar um presente. Sente-se, Wendy. Felipe é só assim, meio ranzinza."Wendy apertou os lábios, sem responder. Era esposa dele, mas precisava da ex-noiva dele para amenizar o clima. Ali, ninguém a queria, mas ela ainda assim comparecera. Afinal, aos dezoito anos, ele prometera celebrar juntos o aniversário de vinte e oito.Sentou-se diretamente ao lado de Felipe, afastando Cristiana.O rosto de Cristiana endureceu por um instante, mas logo ela perguntou:"E então, Wendy, o que preparou para o Felipe?"Um dos presentes curiosos abriu a caixa e revelou um cachecol, sem etiqueta, claramente feito à mão.Cristiana falou novamente:"Olha só, pensamos igual! Também dei um cachecol para o Felipe."Os dois cachecóis, ambos tricotados à mão, foram colocados lado a lado — impossível dizer qual estava mais bonito.De repente, alguém esbarrou na mesa. Uma garrafa de vinho aberta tombou e o líquido se espalhou, indo direto nos dois cachecóis.Felipe estendeu a mão e pegou um dos cachecóis; o outro estava completamente encharcado, exalando forte cheiro de bebida.O que ele pegou era o de Cristiana.Ao ver o cachecol em que tinha trabalhado por dois meses mergulhado em álcool, Wendy ficou pálida de repente, sem entender o motivo, sentindo o coração pesado e dormente.Cristiana suspirou, segurou o braço dela de forma reconfortante e disse: "Wendy, não fica chateada, não. Dá pra lavar e usar de novo."Wendy continuou sem responder, apenas olhou para Felipe.Ele mantinha os cílios abaixados, ocultando as emoções nos olhos.O clima no ambiente ficou levemente constrangedor, como se Wendy tivesse atrapalhado uma festa onde todos se divertiam. Um a um, os convidados se levantaram dizendo que já iam embora.Ela permaneceu sentada, imóvel, olhando para o cachecol abandonado na mesinha de centro, sentindo-se igual a ele.Os outros foram saindo aos poucos. Quando viu Felipe também se preparar para sair, Wendy disse baixo: "Felipe, feliz aniversário."Felipe pareceu não ouvir. Ao redor, estavam apenas seus amigos próximos. Ele só fora encontrado pela Família Lima aos vinte e um anos, época em que já era um novo rico feito por conta própria. Ao lado dele estava a Wendy de dezenove anos.Sete anos se passaram; o novo rico tornara-se um magnata no centro do poder, mas o sentimento entre eles já não existia mais.Aqueles tempos difíceis, enfrentados juntos no anonimato, pareciam pertencer a outra vida.Felipe pediu a alguém que levasse Cristiana de volta.Cristiana tocou de leve o ombro dele. "Conversem com calma, vocês dois, não briguem de novo."Alguém riu com desdém: "Cristiana, você tem uma paciência admirável.""Não é questão de paciência, só acho que a Wendy daquela época também era imatura, com certeza não fez por mal.""Que nada, fez de propósito. Acabou com a vida de outra pessoa e ainda teve a cara de pau de tomar seu lugar. Como é que ela ainda tem coragem de aparecer?"A voz soou cada vez mais cheia de desprezo e foi diminuindo aos poucos.Wendy permaneceu sentada, como se estivesse paralisada, sentindo o sangue gelado em cada centímetro do corpo, até a cor dos lábios esmaecer.Ela se levantou, pegou o cachecol encharcado e olhou para Felipe."Felipe."Chamou por ele com uma voz suave e contida.O paletó já estava apoiado no braço de Felipe; ao ouvir Wendy, ele afrouxou levemente a gravata, mas não a olhou. Seu semblante demonstrava visível impaciência. "O que você quer agora?"Ela sorriu de leve, e de seus lábios bonitos saiu uma frase: "Vamos nos divorciar, Felipe."Um traço de surpresa atravessou o olhar dele, a expressão tornou-se sombria e pesada. "Isso é algum truque novo? Primeiro me drogou pra que eu ficasse com você, agora quer se separar como se fosse superior. Wendy, não se cansa disso?""Desculpa por ter te prendido por três anos, mas desta vez é sério."O sarcasmo nos olhos de Felipe foi desaparecendo pouco a pouco. De repente, ele a puxou para perto, apertando firmemente o queixo dela com os dedos. Só quando viu a expressão de dor no rosto dela, aquela sensação sufocante em seu peito diminuiu um pouco. "Agora você fala em tempo perdido? Onde você estava três anos atrás, hein? Vou te dizer, Wendy: quer se divorciar? Não vai levar um centavo meu!""Eu saio de mãos abanando."O olhar dela era límpido, a voz ainda calma e serena, sem vestígios de mágoa.Depois que Felipe foi encontrado pela Família Lima, Wendy também foi reconhecida pelos pais da família como filha de consideração. Todos sabiam que a Família Lima não queria que o recém-encontrado Sr. Felipe se casasse com uma mulher comum, então deram a ela o título de filha adotiva, apenas para silenciar os comentários.Felipe fitou o rosto frio dela, engoliu seco e virou de costas."Tudo bem. Sai de mãos abanando, mas não se arrependa depois."Lá fora, não se sabia ao certo quando começara a chover. A mansão ficava no topo de uma colina, nos arredores da cidade, e por ali era difícil conseguir um carro.Os outros já tinham ido embora dirigindo. Wendy, que chegara de táxi, ficou por último. Parada sob o beiral, ela observava a chuva fina e constante.Um Rolls-Royce preto atravessou a cortina de chuva e parou diante dela. O vidro do carro abaixou-se, revelando o rosto do assistente de Felipe.O nome do assistente era Dinis Leão."Senhora, entre, por favor."Wendy permaneceu imóvel do lado de fora, o olhar atravessando a fresta da janela do carro, como se soubesse que havia mais alguém sentado lá dentro.Ela não disse nada, e foi então que a voz de Felipe soou."Vá embora, deixe-a aí para ver se a água da cabeça dela esfria."Dinis ficou um pouco constrangido, deixou de olhar para Wendy e partiu com o carro.Wendy observou o carro se afastar, piscou devagar. Os fios de chuva avançaram, tocando-lhe o rosto. O frio parecia cravar-se até o osso.Aos dezoito anos, Felipe sonhava comemorar o aniversário de vinte e oito ao lado dela. Mas agora, aos vinte e oito, ele a desprezava profundamente.Nesses três anos, ele nunca a tocara, mal voltara para casa.No círculo social, todos diziam que ela era a mais infeliz entre as mulheres que haviam se casado com milionários. Tinha só uma bela gaiola, e nada mais.Para todos, ela era a vilã que transformara Thais Anjos em uma pessoa em estado vegetativo e roubara o noivo de Cristiana. Uma mulher condenada.Mas parecia que ninguém se lembrava de que ela, dos doze aos dezenove anos, estivera ao lado dele, acompanhando-o desde a pior fase até o início do sucesso.Diziam que a Família Lima lhe dera o título de afilhada e que ela não se contentara, tentando usar os sete anos de companhia para chantagear Felipe moralmente por toda a vida.Mais sete anos se passaram num piscar de olhos. Somando tudo, ela já estava ao lado de Felipe há catorze anos.Ela baixou os cílios e ficou olhando para o aplicativo no celular: ainda não havia nenhum motorista disposto a aceitar a corrida.Quando voltou à Baía Nuvem, já eram duas horas da manhã. A barra do vestido estava encharcada, grudando nos tornozelos. O fim do outono trazia um frio que fazia seus lábios tremerem.Dentro da mansão, as luzes permaneciam acesas. Ao trocar de sapatos no hall de entrada, ela viu o homem sentado no sofá, ocupado com trabalho.A estrutura óssea de Felipe era perfeita; não importava quanto tempo passasse olhando para aquele rosto, ele continuava sendo de tirar o fôlego.Sentado ali, ele parecia uma montanha gelada e inalcançável.Wendy, é claro, não pensava que ele a estava esperando. Três anos antes, já tinham rompido de vez. Ela, antes radiante, agora mal reconhecia a mulher amarga refletida no espelho.Ela trocou de sapatos em silêncio, jogou o lenço no lixo perto da porta e subiu as escadas.No quarto principal, seus pertences eram numerosos: tudo limpo e acolhedor. Como Felipe quase nunca voltava para casa, todos a ridicularizavam por viver como uma viúva de marido vivo.Ela pegou uma pequena mala e colocou algumas roupas do dia a dia. Quanto às bolsas e joias de luxo espalhadas pela parede, nunca as tocara.Felipe dissera que ela não era digna.Aos olhos dele, ela era uma oportunista movida pelo dinheiro. Deixar os artigos de luxo diante dela, sem que pudesse usar, era um tipo de tortura.Wendy desceu com a mala, e colocou o acordo de divórcio assinado sobre a mesa de centro."Felipe, eu já assinei."Nesses três anos, cada encontro entre eles era uma briga. Para ser exato, eram acusações dela: reclamava de sua frieza, tentando loucamente chamar sua atenção. Ele apenas ficava parado, observando-a perder o controle, com um distanciamento gélido, como quem assiste a um incêndio do outro lado do rio.O olhar de Felipe se desviou do computador para a mala dela. A garganta ardia como se tivesse sido invadida por ácido, queimando do pescoço ao estômago.Ele soltou uma risada irônica, a voz fria e cortante como uma lâmina, capaz de rasgar os tímpanos dela.Capítulo 3Wendy Jardim chegou ofegante à Mansão Branca quando a festa já havia começado há algum tempo.A pessoa na porta, claramente surpresa com sua chegada, não esperava vê-la ali."Srta. Jardim, o que faz aqui? Todos já jantaram..."Era o jantar de aniversário do marido, mas esqueceram de convidar a própria esposa. Entre tantos conhecidos, ninguém se dera ao trabalho de avisá-la.Ela sorriu para o porteiro e, prestes a empurrar a porta da mansão, ouviu as conversas que vinham de dentro."Cristiana, o que você deu de presente? O Felipe não tira os olhos da sua sacola, já está ansioso faz tempo.""Eu? Será?""Claro que sim! Você quase fura a sacola de tanto olhar. Faz tempo que a Cristiana voltou para o Brasil, Felipe, acho melhor você se separar logo da Wendy, assim ninguém mais fica incomodado.""Concordo. Naquela época, foi ela quem armou tudo para deitar com você. Se não fosse sua compaixão e preocupação com a reputação dela, jamais teria virado sua esposa. Já teria sido engolida pelo julgamento de todos."No centro da sala, um homem vestia um terno escuro impecável, com dois botões da camisa abertos no colarinho. Seu rosto era de traços marcantes, naturalmente atraente e intenso, com sobrancelhas profundas, nariz reto e lábios finos. Parecia uma borboleta venenosa e colorida, e o olhar levemente inclinado trazia uma arrogância fria e distante."Não há pressa.""Felipe, já se passaram três anos e ainda não tem pressa? Na época, por causa da Wendy, a irmã da Cristiana ficou em estado vegetativo. Se não fosse por sua avó protegê-la, nós já teríamos acabado com ela."Felipe Lima brincava distraidamente com um isqueiro entre os dedos longos e elegantes, até que, de relance, notou uma sombra na porta.Só então todos perceberam que Wendy já estava ali, sem que ninguém soubesse quando havia chegado.Alguém murmurou, "Quem avisou ela?"Ninguém respondeu: estava claro que ela viera por conta própria.Wendy baixou o olhar. Tinha um rosto sereno e delicado, traços suaves e um formato de rosto oval, vestia uma blusa de lã clara, e o cabelo, gentilmente preso atrás da orelha, emoldurava a testa. Quem a visse jamais acreditaria que fosse capaz de algo vergonhoso. Mas era ela, sim, quem havia feito tudo aquilo.Ela segurava um presente nas mãos. Olhou para Felipe, sentado no centro, e sentiu o peito apertado como se envolto por arame farpado, a dor se infiltrando até as pontas dos dedos.Ela caminhou até ele, e antes que pudesse entregar o presente cuidadosamente preparado, viu Felipe franzir levemente as sobrancelhas e lançar um comentário desdenhoso:"Quem te deixou vir?"Risadinhas soaram ao redor, como se cada uma delas quebrasse um pouco do seu orgulho.Cristiana Anjos, ao ouvir aquilo, olhou para Felipe com leve reprovação e puxou Wendy para sentar:"Ela é sua esposa, pelo menos veio te dar um presente. Sente-se, Wendy. Felipe é só assim, meio ranzinza."Wendy apertou os lábios, sem responder. Era esposa dele, mas precisava da ex-noiva dele para amenizar o clima. Ali, ninguém a queria, mas ela ainda assim comparecera. Afinal, aos dezoito anos, ele prometera celebrar juntos o aniversário de vinte e oito.Sentou-se diretamente ao lado de Felipe, afastando Cristiana.O rosto de Cristiana endureceu por um instante, mas logo ela perguntou:"E então, Wendy, o que preparou para o Felipe?"Um dos presentes curiosos abriu a caixa e revelou um cachecol, sem etiqueta, claramente feito à mão.Cristiana falou novamente:"Olha só, pensamos igual! Também dei um cachecol para o Felipe."Os dois cachecóis, ambos tricotados à mão, foram colocados lado a lado — impossível dizer qual estava mais bonito.De repente, alguém esbarrou na mesa. Uma garrafa de vinho aberta tombou e o líquido se espalhou, indo direto nos dois cachecóis.Felipe estendeu a mão e pegou um dos cachecóis; o outro estava completamente encharcado, exalando forte cheiro de bebida.O que ele pegou era o de Cristiana.Ao ver o cachecol em que tinha trabalhado por dois meses mergulhado em álcool, Wendy ficou pálida de repente, sem entender o motivo, sentindo o coração pesado e dormente.Cristiana suspirou, segurou o braço dela de forma reconfortante e disse: "Wendy, não fica chateada, não. Dá pra lavar e usar de novo."Wendy continuou sem responder, apenas olhou para Felipe.Ele mantinha os cílios abaixados, ocultando as emoções nos olhos.O clima no ambiente ficou levemente constrangedor, como se Wendy tivesse atrapalhado uma festa onde todos se divertiam. Um a um, os convidados se levantaram dizendo que já iam embora.Ela permaneceu sentada, imóvel, olhando para o cachecol abandonado na mesinha de centro, sentindo-se igual a ele.Os outros foram saindo aos poucos. Quando viu Felipe também se preparar para sair, Wendy disse baixo: "Felipe, feliz aniversário."Felipe pareceu não ouvir. Ao redor, estavam apenas seus amigos próximos. Ele só fora encontrado pela Família Lima aos vinte e um anos, época em que já era um novo rico feito por conta própria. Ao lado dele estava a Wendy de dezenove anos.Sete anos se passaram; o novo rico tornara-se um magnata no centro do poder, mas o sentimento entre eles já não existia mais.Aqueles tempos difíceis, enfrentados juntos no anonimato, pareciam pertencer a outra vida.Felipe pediu a alguém que levasse Cristiana de volta.Cristiana tocou de leve o ombro dele. "Conversem com calma, vocês dois, não briguem de novo."Alguém riu com desdém: "Cristiana, você tem uma paciência admirável.""Não é questão de paciência, só acho que a Wendy daquela época também era imatura, com certeza não fez por mal.""Que nada, fez de propósito. Acabou com a vida de outra pessoa e ainda teve a cara de pau de tomar seu lugar. Como é que ela ainda tem coragem de aparecer?"A voz soou cada vez mais cheia de desprezo e foi diminuindo aos poucos.Wendy permaneceu sentada, como se estivesse paralisada, sentindo o sangue gelado em cada centímetro do corpo, até a cor dos lábios esmaecer.Ela se levantou, pegou o cachecol encharcado e olhou para Felipe."Felipe."Chamou por ele com uma voz suave e contida.O paletó já estava apoiado no braço de Felipe; ao ouvir Wendy, ele afrouxou levemente a gravata, mas não a olhou. Seu semblante demonstrava visível impaciência. "O que você quer agora?"Ela sorriu de leve, e de seus lábios bonitos saiu uma frase: "Vamos nos divorciar, Felipe."Um traço de surpresa atravessou o olhar dele, a expressão tornou-se sombria e pesada. "Isso é algum truque novo? Primeiro me drogou pra que eu ficasse com você, agora quer se separar como se fosse superior. Wendy, não se cansa disso?""Desculpa por ter te prendido por três anos, mas desta vez é sério."O sarcasmo nos olhos de Felipe foi desaparecendo pouco a pouco. De repente, ele a puxou para perto, apertando firmemente o queixo dela com os dedos. Só quando viu a expressão de dor no rosto dela, aquela sensação sufocante em seu peito diminuiu um pouco. "Agora você fala em tempo perdido? Onde você estava três anos atrás, hein? Vou te dizer, Wendy: quer se divorciar? Não vai levar um centavo meu!""Eu saio de mãos abanando."O olhar dela era límpido, a voz ainda calma e serena, sem vestígios de mágoa.Depois que Felipe foi encontrado pela Família Lima, Wendy também foi reconhecida pelos pais da família como filha de consideração. Todos sabiam que a Família Lima não queria que o recém-encontrado Sr. Felipe se casasse com uma mulher comum, então deram a ela o título de filha adotiva, apenas para silenciar os comentários.Felipe fitou o rosto frio dela, engoliu seco e virou de costas."Tudo bem. Sai de mãos abanando, mas não se arrependa depois."Lá fora, não se sabia ao certo quando começara a chover. A mansão ficava no topo de uma colina, nos arredores da cidade, e por ali era difícil conseguir um carro.Os outros já tinham ido embora dirigindo. Wendy, que chegara de táxi, ficou por último. Parada sob o beiral, ela observava a chuva fina e constante.Um Rolls-Royce preto atravessou a cortina de chuva e parou diante dela. O vidro do carro abaixou-se, revelando o rosto do assistente de Felipe.O nome do assistente era Dinis Leão."Senhora, entre, por favor."Wendy permaneceu imóvel do lado de fora, o olhar atravessando a fresta da janela do carro, como se soubesse que havia mais alguém sentado lá dentro.Ela não disse nada, e foi então que a voz de Felipe soou."Vá embora, deixe-a aí para ver se a água da cabeça dela esfria."Dinis ficou um pouco constrangido, deixou de olhar para Wendy e partiu com o carro.Wendy observou o carro se afastar, piscou devagar. Os fios de chuva avançaram, tocando-lhe o rosto. O frio parecia cravar-se até o osso.Aos dezoito anos, Felipe sonhava comemorar o aniversário de vinte e oito ao lado dela. Mas agora, aos vinte e oito, ele a desprezava profundamente.Nesses três anos, ele nunca a tocara, mal voltara para casa.No círculo social, todos diziam que ela era a mais infeliz entre as mulheres que haviam se casado com milionários. Tinha só uma bela gaiola, e nada mais.Para todos, ela era a vilã que transformara Thais Anjos em uma pessoa em estado vegetativo e roubara o noivo de Cristiana. Uma mulher condenada.Mas parecia que ninguém se lembrava de que ela, dos doze aos dezenove anos, estivera ao lado dele, acompanhando-o desde a pior fase até o início do sucesso.Diziam que a Família Lima lhe dera o título de afilhada e que ela não se contentara, tentando usar os sete anos de companhia para chantagear Felipe moralmente por toda a vida.Mais sete anos se passaram num piscar de olhos. Somando tudo, ela já estava ao lado de Felipe há catorze anos.Ela baixou os cílios e ficou olhando para o aplicativo no celular: ainda não havia nenhum motorista disposto a aceitar a corrida.Quando voltou à Baía Nuvem, já eram duas horas da manhã. A barra do vestido estava encharcada, grudando nos tornozelos. O fim do outono trazia um frio que fazia seus lábios tremerem.Dentro da mansão, as luzes permaneciam acesas. Ao trocar de sapatos no hall de entrada, ela viu o homem sentado no sofá, ocupado com trabalho.A estrutura óssea de Felipe era perfeita; não importava quanto tempo passasse olhando para aquele rosto, ele continuava sendo de tirar o fôlego.Sentado ali, ele parecia uma montanha gelada e inalcançável.Wendy, é claro, não pensava que ele a estava esperando. Três anos antes, já tinham rompido de vez. Ela, antes radiante, agora mal reconhecia a mulher amarga refletida no espelho.Ela trocou de sapatos em silêncio, jogou o lenço no lixo perto da porta e subiu as escadas.No quarto principal, seus pertences eram numerosos: tudo limpo e acolhedor. Como Felipe quase nunca voltava para casa, todos a ridicularizavam por viver como uma viúva de marido vivo.Ela pegou uma pequena mala e colocou algumas roupas do dia a dia. Quanto às bolsas e joias de luxo espalhadas pela parede, nunca as tocara.Felipe dissera que ela não era digna.Aos olhos dele, ela era uma oportunista movida pelo dinheiro. Deixar os artigos de luxo diante dela, sem que pudesse usar, era um tipo de tortura.Wendy desceu com a mala, e colocou o acordo de divórcio assinado sobre a mesa de centro."Felipe, eu já assinei."Nesses três anos, cada encontro entre eles era uma briga. Para ser exato, eram acusações dela: reclamava de sua frieza, tentando loucamente chamar sua atenção. Ele apenas ficava parado, observando-a perder o controle, com um distanciamento gélido, como quem assiste a um incêndio do outro lado do rio.O olhar de Felipe se desviou do computador para a mala dela. A garganta ardia como se tivesse sido invadida por ácido, queimando do pescoço ao estômago.Ele soltou uma risada irônica, a voz fria e cortante como uma lâmina, capaz de rasgar os tímpanos dela.